Novembro de 1987, arredores de Vulcan, Transilvânia, Roménia

O vulto deslocava-se aos tropeções pelo caminho de terra. Sabia que estava a ficar sem tempo. O lusco-fusco do fim de tarde abraçava a floresta ao seu lado, o vento sacudia as árvores violentamente. Pelo meio dos troncos pareceu-lhe distinguir uma fonte de luz, uns metros para cima do monte.

Fugia. Não por medo, pois nunca soubera o que isso era, mas por autopreservação. Se a polícia lhe punha as mãos em cima, estava feita. Um marido que cai pelas escadas abaixo, é uma tragédia. Dois, lá foi aceite a muito custo como uma infeliz coincidência. Hoje fora o terceiro. Desta vez da varanda do quarto andar. E o corrimão era alto. Já não lhe dariam novamente o benefício da dúvida.

A chuva, pesada e grossa, arranjava brechas entre a folhagem para lhe dificultar ainda mais a subida. Um líquido quente e pegajoso escapava-se das cuecas, para depois lhe escorrer pelas pernas abaixo.

Tinha de se livrar daquilo. Tinha de arranjar um sítio para parir, de preferência sem falecer no processo, e depois livrar-se daquilo.

Finalmente um pouco de sorte. A luz escapava-se pela janela de uma pequena casa, oriunda de uma lareira que teimava em arder ainda, embora já carecesse de lenha que a alimentasse.

Bateu várias vezes na porta de madeira, pois não havia campainha à vista. Não obteve resposta. Experimentou a maçaneta, e claro que se abriu. Qual seria o motivo para trancar uma porta no meio da floresta? Talvez impedir uma grávida de dar à luz confortavelmente…

Acercou-se da lareira, aproximando as palmas das mãos do fogo para se aquecer. Logo se dobrou em sofrimento. Mais uma contracção. Nunca tinha tido um filho, mas sentia que o momento se aproximava. Atirou umas achas para a fogueira, que retirou de uma cesta na proximidade. Ainda se riu — atirar achas para a fogueira sempre fora uma das suas especialidades.

Deitou-se de costas no chão, puxou o saiote para cima da cintura, e, com um esforço considerável, conseguiu livrar-se das cuecas. Apoiou-se nos cotovelos e começou a fazer força.

Pariu com sucesso.

O produto era enorme, feio como tudo, já com cabelo e um dente na boca. Mas não chorava. Aliás, numa inspecção mais a fundo, nem sequer respirava. Melhor assim, já nem ia dar trabalho.

De repente sentiu-se bastante ourada, uns suores frios começaram a brotar-lhe da testa. Antes que conseguisse fazer algo, desmaiou de exaustão, largando o recém-parido, que rolou para o lado, desamparado.

O primeiro impacto foi com a cabeça no chão, o que, ironicamente, lhe salvou a vida. Ao substituir a proverbial palmada no rabo, fez com que irrompesse num berreiro desesperado, insuflando pela primeira vez os seus pequenos pulmões.

Berrava pela mamã, que há segundos pensava em asfixiá-lo, e que agora se encontrava impossibilitada de o ouvir.

* * *

Petru, o pastor, regressava a casa com o seu pequeno rebanho. Deixara novamente as horas correrem, como sempre absorto na leitura, que o transportava para mundos bem melhores do que o dele. Só quando começara a chover se dera conta de que o anoitecer chegara, e metade do caminho de regresso já fora percorrido sem luz.

Menos mal. Enquanto esperava que os animais entrassem no curral, apercebera-se de que o lume ainda ardia. Já não teria de o reacender, e poderia prosseguir com o livro, o qual conseguira na feira da aldeia praticamente de graça.

Não estranhou a porta estar escancarada. Com ele, esse tipo de coisa era normal. Esquecia-se de tudo o que era mundano, capaz de colocar as chaves no fogão, ou de já não saber o que ia fazer à cozinha logo depois de entrar. Mas depois conseguia focar-se em algo tão intensamente que o resto do universo desaparecia da sua percepção.

Deparou-se com a visão mais estranha que tivera em toda a sua vida. Uma mulher enorme encontrava-se deitada em frente à lareira. As pernas estavam uma para cada lado, dobradas. No meio, uma mancha de sangue obliterava o sexo, do qual saía uma estrutura tubular.

Petru sabia o que estava a ver, quer dizer, ele nunca vira uma mulher sem roupa, mas já ajudara umas centenas de ovelhas e outros animais a trazerem uma cria ao mundo. Atravessou a sala de um salto e encontrou o que procurava, meio escondido debaixo do saiote. Verificou. Respirava e estava quente, embora não chorasse. Pegou-lhe ao colo de imediato.

Era um rapaz lindo, perfeitinho, já com um dentinho e algum cabelo. Enorme também, não podia ser de outra forma, considerando a mãe. Será que Deus atendera as suas preces? Sempre adorara crianças. Sempre quisera uma por perto. E eis que do nada, uma aparecia em sua casa. Só podia ser um milagre.

 

Petru fizera há pouco tempo cinquenta anos. Habitava naquela casa há trinta e seis. Vivia sozinho há vinte, pois os seus pais adoptivos tinham ido a enterrar no mesmo ano, com um mês de diferença. Sabia os dias exactos de qualquer destes acontecimentos, assim como as horas e até os minutos. Podia-se esquecer da porta do curral aberta, mas não saía antes de contar subconscientemente as ovelhas.

Os números sossegavam-lhe a mente inquieta. Tinham uma ordem subjacente, que não se sujeitava a variáveis externas.

Sempre fora diferente. Nascera numa família que, não sendo rica, vivia desafogada. Filho único, bebé prematuro, quase matara a mãe ao vir ao mundo. Crescera frágil, propenso a ficar doente, mas com uma mente extremamente curiosa. Continuara assim como adulto: enfezado, débil, mas sem sossegar quando um problema se lhe apresentava.

Fora brilhante na escola, mas apenas em termos de resultados. Cedo se tornara óbvio que algo de errado se passava com o rapaz. Os seus dotes sociais eram praticamente inexistentes, o que fez com que nunca tivesse amigos. Ficava com cara de caso quando alguém contava uma piada, para a seguir se partir a rir quando se discutia uma situação mais séria. Falava tão pausadamente, articulando cada palavra tão perfeitamente, que ninguém o deixava acabar uma frase.

Mas era terno, amistoso, e tentava ajudar toda a gente que precisasse. Só que os outros, assustados pela diferença, não permitiam.

E foi assim que descobriu os livros. Nunca mais o pequeno Petru foi visto sem um. A cada oportunidade, mergulhava num universo paralelo, num mundo apenas dele e do autor, onde podia ser o que quisesse: o mais valente dos heróis ou o mais maquiavélico dos vilões.

Ainda assim, não lhe faltava amor. Os pais compreendiam-no, apoiavam-no, e orgulhavam-se dele. Sabiam que o tempo o ensinaria a comportar-se de forma a ser aceite. E ele adorava os pais, que o protegiam e lhe compravam todos os livros que conseguisse ler.

Até que o mais rude dos golpes lhe foi infligido. A repressão comunista chegou até eles, tinha ele quatorze anos, vinte e cinco dias, oito horas e vinte e três minutos. A família foi deslocada. Pouco depois os pais foram assassinados. E o pobre Petru foi colocado numa instituição.

Logo ele, que necessitava de regras, ordem e lógica tanto como do ar que respirava. Entrou em completo parafuso. O ambiente era caótico, ruidoso, quase tudo era composto de situações inesperadas. E ele simplesmente não estava equipado para lidar com aquilo. Para piorar a situação, viu-se privado do amor dos pais, que tinha sido o que o mantivera inteiro enquanto crescia.

Fugiu. Durante meses caminhou sem destino. Contava os passos que dava, as árvores por que passava e os pássaros que via. Releu centenas de vezes o único livro que levara com ele. Esteve para morrer em várias ocasiões. De sede, de fome e de frio.

As solas dos sapatos gastaram-se, depois romperam-se, depois desfizeram-se. Passou a caminhar descalço, tendo sempre o cuidado de evitar estradas principais ou centros urbanos mais populosos.

Até que chegou à sua nova casa. Viu-a pelo meio das árvores. Decidiu mendigar um copo de água e um pedaço de pão. Os dois velhotes ofereceram-lhe um banho e uma dormida em troca de levar as ovelhas a pastar. A tranquilidade dessa tarde mexeu com ele, já não se sentia tão em paz há muito tempo. Demorou-se mais um dia. Depois outro. Percebeu que aos velhotes já lhes faltava a genica para tratar diariamente de todos os animais, e perguntou se podia ficar.

Só que manter o seu cérebro abaixo do limiar do sofrimento veio com um preço elevado. Vivia isolado, eram esporádicos os contactos com outras pessoas que não os novos pais. Perdeu ainda mais capacidade social, ficou ainda mais estranho para os outros.

Ainda assim, era perfeitamente capaz de ir à aldeia fazer um negócio. Não se deixava comer por lorpa, e conseguia sempre os melhores valores para os parcos bens que levava para trocar.

Devido ao trauma, tornou-se hiperprotector em relação às crianças. E como não percebia as regras sociais, era, aos olhos dos outros, demasiado afectuoso com elas. Pegava em todas ao colo, fazia festinhas e crivava-as de beijinhos. Porque na cabeça dele todas as crianças precisavam de beijinhos. É que era um mundo cruel aquele.

Claro está que provocou o efeito inverso ao pretendido. Já ninguém na aldeia permitia que o seu filho se aproximasse dele.

E então existiu da única maneira que o mundo lhe consentiu. Pastoreando as ovelhas, e lendo livro atrás de livro. Vivendo através de outras pessoas, com o único arrependimento de não ter um filho para amar.

* * *

Stanca abriu os olhos. Mas teve a certeza de que só poderia estar ainda no mundo dos sonhos. É que havia um bebé que se alimentava de uma das suas mamas, mantido no lugar por um pequeno homem que ela nunca tinha visto.

As memórias voltaram-lhe de uma assentada. Estremeceu. Que desperdício de tempo e energia. Nove meses a carregar aquela coisa, que seria o seu garante para o futuro, e num dos seus acessos de raiva, atirara o marido rico da varanda abaixo. Que contratempo!

Caramba, também tivera azar. Com um metro e noventa e dois de altura, era forte como um touro, e facilmente levantava qualquer um dos seus três — agora falecidos — maridos do chão. Junte-se isso a um temperamento explosivo que não admitia ser contrariado, e claro, receita para o desastre.

Levantou-se, sem qualquer tipo de cuidado. Não fosse Petru, e o bebé teria caído novamente. Dirigiu-se para a porta, disposta a continuar a sua fuga, quando ouviu a amostra de homem falar.

— Então e o bebé? Ele precisa de beijinhos. E de ser alimentado!

A frase demorou um século a completar-se. Mas a dicção era irritante de tão perfeita.

— Podes ficar com ele, se te preocupa assim tanto. Até nunca.

Stanca transpôs a porta, desejosa de colocar o máximo de distância entre ela e aquela criança. Mas uma vez cá fora, teve um banho de realidade. Acabara de matar outro marido. Com toda a certeza andariam à procura dela, e os casos anteriores seriam reabertos. Precisava de deixar a situação arrefecer.

Ponderou. Podia desfazer-se do atrasado mental e do produto. Mas depois como é que se alimentava? Nunca tinha trabalhado, nem sabia preparar uma refeição. E podia alguém dar falta do dono da casa, e vir até ali cheirar. Não, toleraria os dois, em troca de esconderijo e comida. Voltou para dentro e observou o homem a alimentar o bebé à colherada, com leite de algum animal, enquanto o cobria de mimos.

— Olha lá, gostavas de criar essa criança?

— Gostava muito, pois gostava.

— Então eis o que te proponho. Escondes-me aqui durante algum tempo, mas não contas a ninguém. A polícia anda atrás de mim, e não te interessa porquê. Tu tratas de mim, e eu deixo-te tratar dessa coisa. Percebes o que te digo? Entendes-me?

— Eu percebo perfeitamente. Não tenho nenhum atraso. E por mim está tudo bem.

Se não tinha nenhum atraso, fazia um óptimo trabalho a fingi-lo. Mas Stanca estava sem opções, e aquele arranjo teria de servir durante um tempo. Apenas tinha de se concentrar, e não deixar o seu mau feitio levar a melhor sobre ela.

— Posso-lhe chamar Apostol? Era o nome do meu pai — inquiriu Petru sem tirar os olhos do bebé, envolto numa pequena manta.

— Por mim até lhe podias chamar Bobi, se quiseres. Agora vai preparar qualquer coisa para comer, que eu estou faminta.

 

Petru obedeceu prontamente. Nem queria acreditar em tamanha sorte. É que, mesmo de um ponto de vista moral, ficar com o bebé era o mais acertado. A alternativa consistia em a mãe o abandonar para morrer em qualquer lado, enquanto fugia da polícia. Ou então ele podia entregá-lo às autoridades, mas bem sabia como as instituições podiam ser cruéis.

Tinha na cozinha as sobras do dia anterior, uma iguaria daquela região: testículos de carneiro preparados ao lume, com polenta para acompanhar. Estavam uma delícia. Aqueceu um pouco a comida, e colocou um prato farto em frente à mãe do seu filho, orgulhoso.

Stanca não queria acreditar no que via. Só o cheiro quase lhe provocou um vómito.

— Diz-me que isto não é o que eu estou a pensar! — vociferou, enquanto erguia o enorme corpanzil.

— Mas eu não consigo saber o que estás a pensar. — O pobre Petru estava genuinamente confuso.

Stanca ergueu a mão, disposta a disciplinar o homenzinho. Afinal, se ia ficar por ali, ele teria de saber como tratar dela. Mas deteve-se antes de a mão iniciar a trajectória descendente. Ouviu um rosnar alto e violento vindo da porta de entrada.

Debaixo da ombreira encontrava-se um belo exemplar de pastor-alemão, o pelo eriçado, os caninos arreganhados com saliva a pingar para o chão.

— Toy, deixa-te disso. A Stanca não é um lobo. Anda cá conhecer o resto da família.

O cão reagiu de imediato à voz de Petru. Calou-se, fechou a boca e baixou as orelhas, transformando-se num inofensivo carneirinho.

— Toy?! Que nome tão parvo para um cão de guarda. — Ainda a refazer-se do susto, Stanca conseguiu mesmo assim arranjar coração para gozar. — Não o quero mais cá dentro.

Petru ia para explicar que era diminutivo para Dostoyevsky, mas considerou infrutífero. Depois informou-a de que era impossível mantê-lo fora. O cão aprendera a rodar a maçaneta com os dentes e a porta não tinha chave.

Stanca preparava-se para levantar nova objecção, mas uma rápida mirada ao animal conteve-a. Estava sem argumentos.

* * *

Viveram assim durante seis meses. Petru cuidava de Apostol, da casa e dos animais. Ainda se deslocava à aldeia para vender os produtos da pequena quinta e adquirir o que não produziam. Levava sempre Apostol com ele. Quando confrontado com a situação, respondia que uns parentes afastados tinham sido presos e ele era o único familiar que restava.

Até que um dia, logo após acordar e verificar que o bebé se encontrava bem, emergiu do quarto despreocupado. Não sabia explicar, porque podia dar-se o caso de Stanca ainda estar a dormir, mas sentiu que ela se tinha ido. O alívio foi enorme, parecia até que o ar dentro de casa estava mais respirável.

Dedicou-se de alma e coração a Apostol, conseguindo que nada lhe faltasse. Todos os dias lhe lia uma história. Mal deu os primeiros passos, foi-lhe comprar uns sapatinhos. Embora fosse um homem de parcas palavras, tentava falar o máximo que lhe era possível com a criança. Sabia que os estímulos eram necessários para o seu desenvolvimento.

Passou-se um ano até Stanca reaparecer por lá. Chegou durante a noite, esbaforida e esfomeada. Nem se deu ao trabalho de requisitar guarida, simplesmente agiu como se a casa fosse dela. E Petru, com medo que ela levasse Apostol, nem piou.

O bebé já andava sozinho, brincando pela pequena sala. Encontrou as pernas sentadas de Stanca e decidiu que era um óptimo poiso para se reequilibrar. De imediato recebeu um empurrão, dado com um desdém arrepiante.

Desta vez, a sua cabeça não chegou a embater no solo. O sempre atento Dostoyevsky veio em seu socorro, mesmo a tempo de lhe amparar a queda.

Stanca sentiu a mão húmida. Horrorizada deu-se conta de que se encontrava desaparecida dentro da boca do incomodativo cão.

Toy não a fechou na totalidade. Apertou apenas até os dentes ficarem marcados. Mas manteve-lhe a mão presa tempo suficiente para ela saber que da próxima ficava sem ela.

Petru presenciou tudo, silenciosamente, fazendo uma nota mental para nunca mais deixar o bebé perto de Stanca.

A norma manteve-se nos anos vindouros. Stanca desaparecia durante uma temporada, às vezes chegando a ano e meio, para depois reaparecer, ficando sempre por volta de seis meses.

 

Petru, altamente inteligente e mestre em detectar padrões, já percebera. É que ele ia lendo os jornais, que trazia consigo das suas excursões à aldeia. Havia sempre um homem que morria, vítima de uma queda da varanda, de um afogamento fortuito, ou até de uma — com toda a certeza inadvertida — martelada na cabeça, nos dias que precediam a chegada de Stanca a sua casa.

Mas sabia que enquanto Toy estivesse por perto, estavam seguros. Até ao dia. Sim, chegaria o dia em que teria de tomar uma atitude.

Perdido em pensamentos, relia pela quarta vez aquela página do livro sem que conseguisse reter uma palavra. Decidiu fazer um intervalo. Levantou os olhos para o rebanho e, nem se apercebendo, realizou uma contagem desnecessária.

Mais ao fundo, Apostol entretinha-se atirando uma bola de farrapos a Toy. Contava agora nove anos. Crescera imenso, como seria expectável, estando já bem mais alto que Petru.

Petru decidira educá-lo em casa. Deveria estar ocupado com os estudos da terceira classe, mas nesse ano realizara os exames correspondentes à quarta, sendo aprovado com mérito. Estudava agora matérias de anos mais avançados, sem demonstrar grande dificuldade e aplicando-se a fundo na aprendizagem.

Para além disso, o pai adoptivo também o instruía em todos os ofícios em que era competente, e que não eram poucos: agricultura, carpintaria, pichelaria e até mecânica, uma das artes que mais apaixonava o garoto.

Tudo isto se tornara possível pois Apostol fora formalmente perfilhado quando fizera três aninhos. Petru inventara que a mãe os abandonara mal ele nascera, que desconhecia o seu apelido e que não tinha maneira de a contactar. E a história era até verdade, apenas Apostol não descendia geneticamente dele.

Não havia ninguém para confirmar os acontecimentos. Mas mais importante, também não existia uma alma que os pudesse desmentir.

Curioso era o facto de que, embora Apostol não fosse biologicamente filho de Petru, ficava de dia para dia mais parecido com ele. Em termos comportamentais, claro. Em termos físicos não havia como negar quem era a sua mãe. Falava devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo, articulando cuidadosamente todas as palavras, detestava ruído e jamais levantava a voz. Para além de demonstrar uma notória falta de aptidões sociais. Petru sabia o porquê, o rapaz raramente interagia com outros seres humanos que não ele.

Chamou por Apostol e pediu-lhe que levasse as ovelhas para casa. Agatha, a ovelha cega, tornara a afastar-se do rebanho, e Petru observou o filho, que logo correu para a trazer de volta.

Arregalou os olhos. Não podia ser! Apostol carregava a ovelha ao colo para junto das outras. Agatha pesava quarenta e um quilos e duzentos gramas, como Petru bem sabia. Era quase inconcebível que um miúdo levantasse aquele peso, por mais invulgarmente encorpado que fosse. Decidiu não comentar. Sabia bem como era sentir-se diferente.

Levantou-se. Era dia de feira na aldeia, e talvez encontrasse por lá alguns livros que pudesse aproveitar nas suas lições a Apostol. Além disso, Stanca estivera lá por casa no mês passado, não voltaria tão cedo.

* * *

O pastor regressava da feira, já o sol iniciara o seu mergulho no horizonte. Vinha satisfeito. Conseguira dois romances e um manual de química do nono ano — bastante batido, não havia como negar — mas que serviria o seu intento.

Toy dormia à porta de casa, placidamente. Estava a ficar mais velhote, pensou, noutros anos teria dado pela presença dele a quilómetros de distância. Assobiou vigorosamente para alertar o cachorro. Nem assim. Será que também estaria a ficar duro de ouvido, como ele?

Conforme se aproximava, reparou que a terra à volta do cão estava toda revolvida, como se ele tivesse andado a tentar desenterrar um osso. Havia fezes e urina espalhadas à sua volta. Correu para ele e ajoelhou-se ao seu lado.

Não respirava. Espuma escapava-se das suas beiças. Com as mãos nuas, abriu-lhe a boca para confirmar as suas suspeitas. As gengivas estavam azuladas.

Furadan, tinha a certeza. O pesticida que guardava ciosamente trancado num armário no barracão do fundo. Levou a mão ao bolso, e claro, tornara a esquecer-se de trazer as chaves consigo.

Entrou em casa o mais rápido que conseguiu. Lá estava ela, mordendo uma maçã, como se nada tivesse acontecido.

— Eu avisei-te que não gostava de cães — falou como se tivesse deitado fora uma toalha cujo padrão não lhe agradava.

— Onde está o Apostol? — perguntou Petru casualmente, dando a entender que nem estaria assim tão interessado. Evitou que o seu olhar se desviasse para o topo do louceiro, onde repousava a caçadeira dos pais adoptivos. Nunca chegaria lá em tempo útil. Não com ela na sala.

— Está a choramingar no quarto, o mariquinhas. Quando viu o cão, tentou agredir-me com o atiçador da lareira. Claro que tive de lhe ensinar algumas boas maneiras. Tentar agredir a própria mãe é lá comportamento que se tenha. Agora prepara-me o jantar, que já não como desde ontem. E nada de órgãos sexuais cozinhados, a minha paciência já se esgotou.

Petru dirigiu-se ao quarto, tentando não levantar muitas ondas, porque aquela situação podia rapidamente sair do controlo. Encontrou Apostol sentado na cama. Mas Stanca mentira, ele não chorava. Olhava fixamente para algo que não estava no quarto, respirando pesadamente. Sangrava de um sobrolho. Vários hematomas mostravam-se na sua face. Petru abraçou-o demoradamente enquanto tomava a sua decisão.

* * *

Não pregou olho. Aguardou até ter a certeza de que todos já estariam num sono pesado. Esgueirou-se do quarto, tendo o cuidado de não pisar nas tábuas que rangiam. Petru sabia perfeitamente quais eram, até a nota em que cada uma gemia. Alcançou a caçadeira, tendo de se esticar ao máximo, pegando simultaneamente em dois cartuchos. Nessa altura, deixou de se preocupar com o ruído. Abriu a arma, colocou os cartuchos, um em cada cano, e fechou-a com um movimento decidido. De seguida, bateu várias vezes com a coronha no chão.

Esperou que Stanca saísse do quarto dela, de caçadeira apontada para a porta. Mas nada aconteceu. Entrou então pelo quarto adentro, determinado. A divisão estava vazia, iluminada pelo luar que entrava pela janela. Um martelo ensanguentado jazia em cima da cama.

Correu para o cubículo onde dormia Apostol, quando a monstra se refugiava na sua casa. Nada! Vazio também. Saiu porta fora, reparando que o corpo de Toy já não se encontrava por lá. Deu a volta por trás, em direcção ao barracão, e viu-os. Aproximou-se, para tentar perceber o que se passava.

A lua cheia permitiu-lhe distinguir a cena macabra. Stanca estava sentada numa cadeira. Amarrada pelos pés e pela cintura, uma mordaça bem apertada na boca. Um fio de sangue escorria-lhe pela testa.

Aos pés dela encontrava-se o cadáver de Dostoyevsky, limpo e sereno, como se dormisse.

Por trás de Stanca, Apostol, de pé. Afagava carinhosamente o cabelo da mãe, enquanto trauteava quase inaudivelmente uma melodia popular.

— Apostol, por Deus, o que fazes?

— Xiu, meu pai. Espera. Já não há-de faltar muito. — Apostol mandou uma mirada rápida para uma lata perto dos seus pés. Ao seu lado repousava uma pequena colher. O Furadan.

Petru agiu rápido. Não podia deixar aquilo acontecer. Uma cicatriz daquelas jamais desapareceria, o rapaz perderia qualquer hipótese de crescer normal.

Aproximou-se, com todas as suas forças empurrou Apostol para trás, encostou a caçadeira à lateral da cabeça de Stanca e disparou sem hesitar. Aquela morte ficaria à sua responsabilidade.

Nada. Não aconteceu nada. O percussor movimentou-se, mas a pólvora recusou-se a reagir. Disparou freneticamente, apenas para obter o mesmo efeito. Merda para aqueles cartuchos com mais de vinte anos!

Impotente, assistiu ao desenrolar da cena. Stanca começou a tremer, depois espasmos sacudiram-na violentamente. Os olhos inchados e raiados, tentando libertar-se das órbitas, uma mistura de espuma e saliva escapava-se pela mordaça.

Apostol voltara a afagar a cabeça da mãe, continuando a cantar a mesma melodia.

Com um último esticão, Stanca finou-se, salvando-se assim Deus sabe quantas vidas mais.

Apostol nunca mais falou da mesma forma. Passou a usar apenas as palavras suficientes para conseguir comunicar o que fosse estritamente necessário. Também nunca mais se riu.

* * *

Era de tarde e ele realizava a sua habitual ronda pela aldeia. Deambulava pelas ruas, até que alguém o chamasse para consertar algo. Podia ser qualquer coisa: desde afinar uma motorizada que se recusava a pegar, ajudar na construção de um alpendre ou até remendar um cano roto.

Já se tinham habituado a lidar com ele. Era mudo, coitado do rapaz, dizia-se que tinha sofrido uma grande tragédia e que, desde aí, nunca mais falara. Mas não era preciso. Diziam-lhe o que precisavam, ele resolvia o que quer que fosse, estendendo depois a mão à espera da esmola.

Também já não se assustavam com a sua presença, embora já passasse do metro e noventa, agora que se aproximava dos quinze anos. Mas mais do que a altura, era a sua envergadura que impressionava. O rapaz era dono de uma musculatura sobredesenvolvida, e, com o seu cinto de ferramentas perpetuamente na cintura, poderia deixar os aldeões desconfortáveis.

Mas todos sabiam que Apostol era um doce, dono de uma paciência infinita, parecendo ter sempre mais um minuto para trocar uns chutos numa bola com as crianças do sítio.

Regressou a casa, e dispôs-se a preparar o jantar, pois Petru — decerto perdido nas leituras — não voltara com as ovelhas, quando já devia ter chegado há muito tempo. Ainda olhava em volta, procurando por Dostoyevsky, depois de todos aqueles anos. Para ele não fora apenas um cão, fora parte da família, e sabia que provavelmente só sobrevivera devido à protecção do animal. Nunca tinham conseguido adoptar outro, seria demasiado doloroso.

* * *

Petru levantou os olhos do livro. As ovelhas baliam. Reparou que estavam agitadas. Uma corria para um lado, para rapidamente recuar. Outra ia na direcção oposta, mas voltava também.

Percebeu de imediato o que se passava. Mas como? Há mais de vinte anos que não se viam lobos por ali. E havia mais do que um. Pelo comportamento do rebanho, estavam cercados.

Tentou manter o sangue frio. Levantou-se, agarrou na caçadeira e no cajado e dirigiu-se para o centro do rebanho. Pela primeira vez na sua vida, deixou ficar o livro para trás.

Viu o primeiro, os olhos amarelos a espreitarem dissimuladamente por entre as árvores que rodeavam o pequeno prado. Fez-se grande, agitou o cajado acima da cabeça e berrou o mais alto que conseguiu, na tentativa de os intimidar.

Estavam esfomeados, concluiu. Normalmente aquilo chegaria para os afugentar. Mas não, via agora mais dois, avançando cautelosamente pela erva fresca. Petru sabia que não estavam ali por ele, muito dificilmente atacavam uma pessoa. Mas uma alcateia esfomeada podia achar que ele não era obstáculo suficiente.

E de facto não acharam. Eram cinco, no total. Um deles carregou sobre uma ovelha, não obstante os esforços de Petru.

Apontou e disparou. Aquele lobo tombou de imediato. Os outros começaram a bater em retirada, mas Petru ainda abateu outro, não queria correr o risco de voltarem.

Levou a mão à cartucheira, para recarregar a arma.

Maldição! Ele e a sua falta de atenção. Esquecera-se de a trazer, ficara em cima do balcão da cozinha. Forçou-se a acalmar. Era muito pouco provável que voltassem.

Apostol acabara de acender o lume do fogão quando ouviu o primeiro disparo. Quando o segundo lhe chegou aos tímpanos, já ele corria tão depressa quanto conseguia. Que ele soubesse, eram os únicos que tinham uma caçadeira num raio de quilómetros, e o pai não era homem para disparar por diversão.

 

Petru observava o rebanho. As ovelhas continuavam inquietas, balindo imenso e correndo de um lado para o outro. Os lobos voltavam. Ia contra toda a lógica, só podiam ter crias para alimentar. Agarrou o cajado.

As ovelhas tinham-lhe dado a sua vida, chegara a altura de lhes retribuir.

Um dos lobos investiu, abocanhando o pescoço da primeira ovelha que lhe apareceu.

Petru correu para lá, e começou à cajadada com toda a sua força, que nunca tinha sido muita. O lobo largou a presa e atirou-se a ele, derrubando-o.

 

Apostol viu Petru a cair. Já nem sentia as pernas. Levou a mão ao cinto e tirou a maior chave de fendas que possuía. Saltou sobre o lombo do animal, agarrando-lhe a cabeça por uma orelha, e enfiou-lhe a ferramenta pelo olho adentro.

O lobo que estava mais perto lançou-se sobre Apostol, fazendo com que este caísse de costas. Antes que lhe chegasse a cravar os dentes, Apostol conseguiu rodear-lhe o pescoço com as suas descomunais manápulas. Pela primeira vez na vida, usou de toda a sua força, exercendo o máximo de pressão que conseguia.

O animal debatia-se, torcia-se, tentando escapar. Apostol não largou, mantendo ao mesmo tempo a dentição da besta seguramente afastada do seu pescoço. Demorou uns minutos até deixar de oferecer resistência, um olhar de espanto eternizado na sua expressão.

Logo se levantou, mas o terceiro animal recuava, embora não tirasse os olhos dele.

Não o perseguiu. Não lhe queria mal. Era simplesmente a natureza deles, não uma escolha deliberada.

Sabia que chegara uns segundos demasiado tarde. Petru sangrava abundantemente do pescoço. Ainda arranjou forças para falar.

— Meu filho, não fiques triste… Alegraste-me a vida… Anda, agora é a tua vez… — Petru aclarou a garganta no limite das suas forças. Ainda tinha algo para dizer. — Usa essa tua força para proteger as pessoas, e eu sentirei que a minha vida valeu a pena…

Apostol queria chorar, mas era incapaz. Com um movimento terno, encerrou os olhos de Petru.

Carregou-o às costas e fez-se ao caminho, com o coração desfeito. Devia-lhe tudo. Até a própria existência.

Deitou Petru na sua cama. Ainda tinha de sair novamente, por muito que lhe custasse. Tinha de ir notificar a polícia do sucedido, e avisar que havia pelo menos um lobo nas redondezas.

* * *

Um ano passou. Apostol vivia sozinho. Vendera as ovelhas, fazia mais dinheiro nos biscates pela aldeia.

Era para lá que se dirigia.

As últimas palavras de Petru ecoavam-lhe na cabeça, enquanto percorria o caminho de terra. Usa essa tua força para proteger as pessoas, e eu sentirei que a minha vida valeu a pena.

Sonhava? Podia jurar que alguém gritara por socorro. Lá à frente distinguiu uma menina loirinha, que gesticulava freneticamente, fazendo-lhe sinal para que a seguisse.

Hesitou por um momento, mas logo disparou atrás dela.

Ela estacou ao lado de um portão, sinalizando-lhe para o saltar.

Ele assim fez, ainda sem saber que entrava pela primeira vez na sua nova casa, prestes a conhecer a sua irmã.

Este conto precede os acontecimentos narrados em “Submersas”, em que Apostol tem um papel preponderante.

Texto escrito segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.