Naquela noite o telemóvel caiu da prateleira, o televisor partiu-se, e uma parte da cozinha ruiu, ficando escancarada para o mundo. Nós éramos três e ficámos de pé, apertadas umas contra as outras. Sentia o quente da barriga da minha irmã espalmada contra a minha. A minha mãe partilhava metade da sua anca comigo. Durante segundos a terra continuou a tremer. A ombreira da porta cuidou de permanecer hirta e inabalável. Um grande guarda-chuva por cima de nós. Continuámos as três. Depois das entranhas da terra pararem de gemer, os gritos começaram a vaguear nas ruas, subindo o morro que era agora a nossa morada. Da casa não restava quase nada. O anterior conforto fora substituído por um espaço vago, sem teto, sem paredes, sem fogão, sem o tacho do feijão que cozinhava quando a fome da terra se saciou. Espreitei para o desconhecido, equilibrando-me. Não dispúnhamos de mais do que meia dúzia de metros à nossa volta. De barriga empinada, que claramente passava o meu diâmetro gravitacional, achei sensato dar a mão à minha irmã. «Cuidado» disse-me, embalada pelo soluçar abafado da nossa mãe que continuava agarrada ao umbral como um sobrevivente num bote insuflável em alto-mar.
Ali tínhamos sobrevivido. Transformadas num x ou y, numa invulgar equação. Existiríamos enquanto percentagem se nos encontrassem.
Sem condições para eu descer a alvenaria destruída não quisemos arriscar. Sentia a trepidação que as pernas da minha mãe produziam ao meu lado. Involuntárias. Espasmáticas. Parecia impossível fugirmos pelas cinzas, destroços e sangue. O sino lastimava-se ao longe. Quem fazia ressoar o sino? Era acolhedor pensar que existia alguém vivo e capaz de chamar os anjos. Aos poucos vimos as estrelas alojarem-se no céu. Ocuparam os lugares habituais, mesmo estando a terra com bolas de fogo e um ar rarefeito. Pequenos fragmentos de luz que, no meio da destruição, nunca me pareceram tão luminosos.
Toda a noite fomos um triângulo de amparo. E fizemos com os nossos corpos um estandarte. No início, Kieza quis esconder as lágrimas, depois dormitou com a testa encostada no meu ombro. Alinhadas, não nos sentíamos prontas para o fuzilamento. A minha mãe rezava sem interrupção. Mesmo quando levantava os olhos das mãos empoeiradas, engolia um soluço, como que impedindo o coração de falar e lá continuava com uma cantilena tão doce quanto a brisa da madrugada. O meu rebento ondulava com a voz da avó dentro de mim. Não compreendo se dormi. Se o fiz, fi-lo deitada de pé, como uma gazela na savana onde os meus pais me levaram um dia a mim e à minha irmã.
Escutava-se o cascalho, o resvalar dos escombros que rebolavam sobre si mesmos soltando ainda mais partículas de pó. «Felizmente não ardemos», ainda pensei. Sempre achara que morrer queimada era das piores mortes que poderia ter. Tantas horas de pé que permitimos a dormência das pernas enraizar-se nos nossos sentimentos como hera. Invejei o sossego das manhãs que passaram e não dei conta. Cobicei os primeiros minutos de uma refeição, agora que o meu estômago roncava. Da água a escorrer para um copo ou quando escorria morna sobre as minhas costas. Contemplei as estrelas a pensar onde estariam o meu marido, o meu cunhado, os meus alunos. Seriam eles estrelas que hoje pareciam brilhar com maior intensidade no céu? Seriam eles que estariam a enviar sinais a dizer que ainda ali andavam? Para quê? Talvez para nos ampararem, mesmo longe, supunha.
«O que vamos fazer?», lamentou-se a minha irmã. Envolvi-a com um braço e fechámos os olhos procurando uma resposta na escuridão. A minha mãe manteve-se calada. Minutos depois, quando falou, fê-lo como se até com o vento quisesse falar.
«A avó viveu 50 anos sob um malicioso sorriso e a ver a pele dela arroxear debaixo da mão do vosso avô. No dia em que ele morreu, ela contava, que se ajoelhou ao lado do corpo do marido e esteve largos minutos a rir. A morte pode ser gloriosa também, confessou-me. E riu-se, riu-se, agarrada à barriga com os músculos a pasmarem-se alienados. A alegria dela não era por se sentir livre, era porque procurava há tanto tempo uma resposta do universo acerca do que era a felicidade que, 50 anos depois, descobriu-o: a fé leva-me a todo o lado, dissera-o. Levou décadas a dizer repetidamente aguenta, aguenta, Monifa, ainda vais ser muito feliz. Sei, que após enviuvar, foi uma mulher muito feliz. Assim digo-vos filhas, aguentem, aguentem, ainda vamos ser muito felizes». E repetimos, «aguenta, aguenta, ainda vou ser feliz», melodiando as angústias que avançavam pelos escombros e chegavam a nós sem dó.
Quando me rebentaram as águas, estávamos tão próximas que o morno escorreu-me pelas pernas e escureceu a terra debaixo dos nossos pés. Não me movi. O meu coração parou com a expectativa de que fosse tudo uma sensação desprovida de consequências. Continuei imóvel, para que o meu nervosismo não inflamasse o da minha irmã e o da minha mãe. Qualquer rastilho seria um propagar provido de desatino. Pelo canto do olho senti que ambas me observavam as feições. A mão invisível que me tapava a boca levou-me a soprar um queixume. Ao pressentir a minha aflição e na prontidão que sempre a assistiu, a minha irmã despiu o casaco de algodão, uma mistura de açúcar caramelizado com baunilha trouxe-me a certeza de que o meu filho ou filha viria ao mundo naquele local.
O meu corpo voltou a procurar a fúria do parto. Aquele forte impulso. Senti-me de novo forte, «chegou a tua vez». Inspirei fundo, mas depressa o diafragma expulsava o ar dos pulmões, enquanto sofria com mais uma contração. Balbuciei qualquer coisa debaixo das estrelas. As dores aproximavam-se devagar, pedindo licença pela intromissão, invadindo o espaço e pedindo controlo dos meus movimentos. Não queria fazer contas do futuro que teria aquela criança, fingindo acreditar.
Acocorei-me. A minha mãe e a minha irmã eram agora dois flancos, rodeando os meus joelhos abertos, cada uma do seu lado. Sorriu-me os olhos em agradecimento pela existência das duas. Quis parir em silêncio, mas não fui capaz. Então, levantei a voz em uníssono com as mulheres que me apiedavam, enquanto sacudia a exigência do nascimento. Uma criança a nascer move montanhas ou escombros e, no meio do caos que nos rodeava, nasceu uma centelha de fé. Um choro que afastou a morte. É uma menina, ouvi a minha mãe dizer. O dia aclarava. Detrás das nuvens o sol trazia um misto de rosa e violeta com ele. Ali nasceu a minha primeira filha. A primeira sobrinha da minha irmã. A primeira neta. Uma primeira bisneta que aguentou até a fé a fazer nascer. E caçou a maior fortuna que é respirar.
